quinta-feira, 4 de março de 2010

Lançamento do livro Inventário dos Terreiros do Distrito Federal e Entorno.

Amigos,

Vi esta notícia no jornal e achei importante publicá-la, pois considero mais uma vitória para as religiões de matriz africana.

fonte - Texto e fotos do Jornal o Correio Braziliense , reporter André Correa ( http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/03/01/cidades,i=176570/PELA+TOLERANCIA+RELIGIOSA.shtml )

Praça dos Orixás, na Prainha representa tolerância Religiosa.

Publicação: 01/03/2010 08:48 Atualização: 01/03/2010 10:12

Praça dos Orixás, na Prainha representa tolerância religiosa Local é palco de lançamento de um livro que, além de divulgar a variedade de cultos afro-brasileiros no DF, destaca a necessidade de legitimar a escolha de credos em um país que, afinal, tem na diversidade cultural uma de suas principais bases de formação


André Corrêa
Os tambores voltaram a tocar na Praça dos Orixás, na prainha ao lado da Ponte Costa e Silva. Eles celebraram o lançamento do livro Inventário dos Terreiros do Distrito Federal e Entorno, organizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) do DF. O trabalho tem o objetivo de dar maior visibilidade às religiões afro-brasileiras que atuam na região da capital federal, valorizar o patrimônio cultural desses grupos e desmistificar o culto de religiões com matrizes africanas.

O superintendente do Iphan no DF, Alfredo Gastal, lembrou que o Brasil é um país laico, portanto sem preferências religiosas; e que deve, por isso, criar mecanismos de inclusão no conjunto do patrimônio cultural brasileiro material e imaterial das diversas correntes religiosas atuantes no país. “É inegável a importância da religião católica no repertório de edificações tombadas pelo patrimônio histórico nacional, porém nós temos o compromisso de criar políticas no sentido de mostrar o trabalho de outras religiões que existem no Brasil”, alertou.

O encontro foi organizado para agradecer e mostrar o resultado do inventário aos dirigentes dos 26 terreiros identificados que abriram suas portas aos pesquisadores. Exemplares do livro foram distribuídos gratuitamente a todos os presentes. Mãe Railda, primeira mãe de santo a instalar um terreiro na região do DF, iniciou a cerimônia de lançamento do livro com o canto para Pai Xangô. Para ela, “é hora de
os terreiros saírem dos guetos e mostrarem a cara.” Trajando um típico vestido de rendas à moda baiana e paramentada com colares e pulseiras,

Mãe Railda aproveitou o encontro para oferecer acarajé, preparado por sua filha de santo, Laura Nascimento. Em pouco tempo, uma fila se formou ao redor da tenda da mãe de santo, que espera ter o seu terreiro tombado pelo Iphan. “Gastal prometeu que meu terreiro vai se transformar em patrimônio cultural de Brasília. Ele foi criado em 1969 lá em Valparaíso e, de lá para cá, vem atendendo a todos que precisam de apoio”.

Uma das principais reclamações dos adeptos da umbanda e do candomblé que participaram do lançamento do livro é a discriminação que sofrem quando manisfestam a sua preferência religiosa. E não é sem motivo. Exemplo disso foi a destruição, em 2002, de algumas das 16 estátuas dos orixás, instaladas na praça em frente à Prainha. O fato demonstra a intolerância por parte de outras correntes religiosas em relação ao culto afro-brasileiro.

Resistência
O trabalho de pesquisa do livro durou pouco mais de um ano, entre a identificação da necessidade de se fazer um mapeamento dos terreiros no DF e entorno, o trabalho de campo e a confecção da publicação. A pesquisa foi realizada pela ONG Associação Positiva de Brasília, e coordenada pelo doutor em educação Jorge Manuel Adão. As entrevistas foram feitas pelos pesquisadores Alexandre Pondes, Jarbas Renato Nogueira, Ada Dias Pinto e Tiago Gomes de Araújo. Destes, apenas o coordenador e Alexandre não são seguidores de nenhuma religião afro-brasileira — situação que, segundo Jarbas Renato, facilitou a receptividade dos pais e mães de santo.“Cheguei a pensar, no início, que o trabalho não poderia ser feito, porque houve uma certa resistência. Mas com o tempo, o trabalho foi sendo entendido”, lembrou Renato. Mesmo assim, o inventário não alcançou todos os terreiros do DF e do entorno. Por isso, uma segunda fase já está em execução e deve resultar em outra publicação, que irá integrar o calendário de comemorações do cinquentenário da inauguração de Brasília. Segundo o coordenador dessa segunda etapa, Marcelo Reis, a previsão é de que sejam identificados mais de 50 terreiros.
Para Astrogildo Maia de Freitas, 42 anos, que trabalha como vigilante no Banco Central e há 28 frequenta o terreiro Tenda Espírita Ogum Matinata, em Ceilândia, o inventário dos terreiros tira a sua religião do anonimato. “É preciso acabar com essa visão negativa que as pessoas têm da nossa religião.” Maia conta que sua função no terreiro é a de álabe — pessoa que coleta ervas para o preparo de banhos. “Quando
chegar em casa, vou me lavar, para tirar qualquer energia que possa prejudicar a mim ou à minha casa”, ensina.
Sentado à beira do lago, com sandálias de tiras brancas, brincos e piercing na sobrancelha, o estudante Igor Waldeson e seu amigo Danilo Freitas, ambos de 19 anos, observavam o movimento de barcos e pessoas brincando nas águas do Paranoá. Igor, que foi para o terreiro quando criança, sob a influência dos pais, acredita que o livro é “uma forma de dizer o que é o candomblé, e não como é. As pessoas ligam os
rituais, os tambores e tudo que acontece dentro do terreiro com coisas negativas, e isso não é verdade. É preciso mais respeito e inclusão na sociedade”, alerta.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O CANTO DOS ESCRAVOS


Este apaixonante e histórico Cd não pode faltar na discoteca dos adeptos dos cultos de matriz africana, bem como dos apreciadores da riquíssima cultura afro-brasileira.
Praticamente é uma viagem musical no tempo, que nos faz imaginar como foi a vida dos escravos no período colonial. Tudo isso , interpretado pelas lindíssimas e célebres vozes de Clementina de Jesus , Tia Doca e Geraldo Filme.
A primeira edição deste disco foi em forma de vinil em 1982 , pelo selo Marcus Pereira, mas com o tempo o disco ficou esgotado nos catálogos de venda , então em agosto de 2003 , o mesmo foi digitalizado e relançado em forma de Cd pelo selo Eldorado , sendo até hoje encontrado nos sites que comercializam cds.
Este disco, constitui-se num resgate histórico, fruto de pesquisa feita pelo filólogo Aires da Mata Machado que em 1929 transcreveu em forma de partitura vários cânticos dos escravos benguelas (Jongos, Vissungos e Ladainhas), através de seus descendentes que trabalhavam no garimpo na região de São João da Chapada (MG), conforme documentol em seu livro O NEGRO E O GARIMPO EM MINAS GERAIS ( Ed. José Olimpo – 1943), conseguindo não só registrar as músicas, mas também várias palavras africanas usadas no vocabulário da região com as respectivas traduções e suas influencias e contribuições para a cultura local..
Ao se ouvir o Cd , pode-se notar a riqueza rítmica trazida pelos povos africanos , além da criativa junção nas letras de termos africanos e termos de nosso idioma.; tudo isso acompanhado por ricos arranjos de percussão.
Para quem quiser curtir este incrível disco fica aqui a minha sugestão !!!!

Axé a todos!!!

Rosana Pinheiro

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

CARAMUJO AFRICANO TAMBÉM É UMA QUESTÃO DE SAÚDE EM NOSSOS TERREIROS



(Rosana Pinheiro e Carlos Augusto Pinheiro dos Santos)

Em vários cultos afro–brasileiros, sobretudo o Candomblé, o IBI (caramujo) é utilizado em oferendas, obrigações, ebós, etc.
De acordo com a dissertação de SILVA, as espécies mais usadas são chamadas de Ibi verdadeiro ou Aruá-do-Mato ( Psiloicus sp. E Megabulinus sp.), são espécies nativas do Brasil , que estão ameaçadas de extinção devido a caça e a destruição de seu ambiente.
Na falta destes, utilizava-se o Caramujo africano (Achatina Fulica), no entanto, este caramujo é um vetor de sérias doenças e mesmo assim encontramos comerciantes que por ignorância ou por inescrupulosidade os vendem em casas de artigos religiosos. Cabendo aqui o nosso alerta.
O caramujo africano (Achatina Fulica) pode transmitir uma série de doenças para o homem, sendo que as pessoas não devem manipulá-lo sem luvas, pois o simples contato pode causar o contágio.
No Candomblé, o caramujo africano é conhecido como Ibi, Cata-sol ou Boi-de-Oxalá.
Este animal pode ser encontrado em hortas, jardins, plantações e armazéns de grãos, terrenos baldios, valas,et, possuindo uma significativa resistência à seca e ao frio.
Este molusco foi introduzido no Brasil ilegalmente na década de 80 , como uma tentativa de substituir a baixo custo o escargot, mas depois descobriu-se que o sabor era horrivel e que o mesmo era vetor de doenças. Desta forma, os criadores decepcionados soltaram seus exemplares na natureza, os quais se adaptaram e se tornaram uma praga que ameaça nossa fauna e flora , além de tornar-se um problema de saúde publica.
O caramujo-africano é um molusco grande e escuro, com até 15 cm de comprimento e 200 gramas de peso. , de concha alongada e cônica marrom ou mosqueada de tons claros.com manchas claras. Ele não deve ser confundido com os moluscos brasileiros, os nativos aruás-do-mato (Megalobulimus sp) que têm importante papel ecológico, além de servirem de alimento e como matéria prima no artesanato dos índios. Eles têm a borda da abertura da concha espessa, enquanto que o caramujo-africano tem esta borda cortante.



DOENÇAS TRANSMITIDAS PELO CARAMUJO AFRICANO


A manipulação direta ou o contato com a secreção desses moluscos deixadas formado rastros por onde passam podem causar contaminação, pois dois tipos de parasitas perigosos são encontrados em sua secreção.
1- Angiostrongytus costaricensis, causador da angiostrongilíase abdominal (FORMA DE PERITONITE ), doença que pode resultar em morte por perfuração intestinal, peritonite e hemorragia abdominal. Os sintomas são dor abdominal, febre prolongada, anorexia e vômito.
2- Angiostrongylos cantonensis, causador da angiostrongilíase meningoencefálica humana (FORMA DE MENINGITE) , que tem como sintomas dor de cabeça forte e constante, rigidez na nuca e distúrbios do sistema nervoso.

Como solução, vejo somente a criação em cativeiro nos terreiros , com devida autorização do Ibama e orientação de biólogos, do Aruá do Mato ( Psiloicus sp. e Megabulinus sp)
Deve ser feita uma ampla campanha junto ao Povo de Santo, quanto aos riscos para a saúde da utilização do IBI AFRICANO (Achatina Fulica). em .seus rituais

PARA SABER MAIS SOBRE O CARAMUJO AFRICANO ENTRE EM CONTATO COM
• Disque-caramujo africano
Tel: (21) 2598-4380 ramal 124 - Instituto Oswaldo Cruz


FONTES CONSULTADAS

http://www.fazfacil.com.br/saude/caramujo.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Caramujo-gigante-africano
http://www.pmf.sc.gov.br/saude/noticias/caramujo_africano.htm
http://www.lagoasanta.com.br/saude/caramujo_africano.htm
http://www.cidadesdobrasil.com.br/cgi-cn/news.cgi?cl=099105100097100101098114&arecod=19&newcod=866
http://www.rio.rj.gov.br/defesacivil/caramujo.htm
SILVA, Maria da Conceição da. CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O SABER POPULAR SOBRE OS MOLUSCOS NOS TERREIROS DE CANDOMBLÉ DE
RECIFE E OLINDA, ESTADO DE PERNAMBUCO. PARAIBA. UFPB, 2006)
( http://www.biblioteca-acaoeducativa.org.br/dspace/bitstream/123456789/367/3/Maria_Conceicao_Silva.pdf )

domingo, 21 de fevereiro de 2010

EXU NA KIMBANDA




Amigos,
Achei o texto abaixo no site da FIETRECA, e considero interessantissimo para entendemos mais sobre a querida entidade chamada EXU e a realidade histórica das origens dos cultos afro-brasileiros . Abaixo a trancrição do mesmo
EXU NA KIMBANDA TRANSCRITO DE http://www.fietreca.org.br/kimbanda.htm
A Lei da Kimbanda vem dos bantos, dos povos Angola-Congo. A “misturança”, ou ainda podemos dizer “sincretismo” entre o Exu-iorubá, os Ngangas e Tatás (almas de chefes kimbandeiros das nações bantas) foi o que deixou esse ar de confusão no povo, que muitos até mesmo sendo "feitos na kimbanda", não entendem, ou o que é pior, tratam-no de diabo. Na verdade, o Exu da kimbanda não é o Exu-Iorubá (Orixá ou Imalé dessa cultura). Os Espíritos que chegam na linha da kimbanda são espíritos de Ngangas ou Tatás, aqueles que quando encarnados na terra eram sacerdotes bantos adoradores de algum Nkisi ou Npungu. No Brasil, o culto aos Npungus e Nkisis através dos seus mensageiros – os Ngangas - foi misturado na escravidão com o culto aos Encantados e aos pajés (da cultura tupi-guarani) e também com o dos Iorubás, surgindo os seguintes novos cultos, fruto da miscelânea: Makumba - que vem de "ma-kiumba" (espíritos da noite). Foi assim chamado o mais primitivo culto sincretista no sul do Brasil (e o primeiro originado no Brasil), dada sua maior preponderância banto; é dela que descendem os outros cultos afro-brasileiros com influência das nações Angola-Congo, Tupi-guarani, Nagô e a Igreja, nessa ordem.

A razão de se chamar makiumba (logo após por deturpação da palavra ficaria makumba ou macumba) foi justamente, porque é um culto que se faz na noite, onde se deveriam chamar necessariamente os espíritos da noite (almas de outros sacerdotes do culto - Eguns ou Ancestrais). No culto iorubano-nagô conhece-se e rende-se culto aos Ancestrais-Egun, porém eles são afastados dos rituais aos Orixás, tentando ter um contato com outro tipo de energia. Isto contribuiu para que os rituais onde se chamavam os eguns fossem menosprezados, tratados pejorativamente e mal interpretados.

Por outro lado, a Igreja também condenava os cultos com influência índio-banto onde se fazia beberagem e supostamente “orgias”.

Na verdade, as danças bantús eram no Brasil e ainda são na África, bastante eróticas, e também é verdade que os Guias bebem e fumam, porém é muito distante de ser uma orgia ou uma bebedeira. Depois, quando os grupos de nações começaram a procurar sua identidade, dividiram-se os principais componentes da makumba, aparecendo: Candomblé de Angola; Candomblé de Congo; Candomblé de Caboclo ou dos Encantados; Catimbó; - todos eles à procura de uma raiz cultural - e também, ao final do século XIX surgem da macumba urbana, (onde se tinha muita participação dos brancos pobres e os descendentes de escravos) a Umbanda e a Kimbanda com influências para o Espiritismo e com muito sincretismo. Na Kimbanda, permaneceu grande parte do culto aos Ngangas da nação Angola-Congo, porém misturado com o diabo (pelas influências dos mitos e tabus dos próprios integrantes - que não tinham conhecimento das origens) e também embaixo do pé do Orixá Iorubá Exu.

Na Africa em terras bantas, muito antes de chegada do branco, já existia o culto aos ancestrais (chamados depois no Brasil "guias"). Também era conhecida a palavra "mbanda" (umbanda) significando "a arte de curar" ou "o culto pelo qual o sacerdote curava", sendo que mbanda quer dizer "O Além - onde moram os espíritos". Os sacerdotes da umbanda eram conhecidos como "kimbandas" (ki-mbanda = comunicador com o Além).

Quando chegam os portugueses e têm contato com os reinos bantos, procuram comerciar com eles de um jeito pacífico. Mais tarde, o Rei do Kongo (manikongo) descendente do primeiro ancestral kongo divinizado o “Tatá Akongo” converte-se ao catolicismo, também fazem o mesmo todos os seus vassalos. Pôde-se apreciar então, que os negros bantos eram evangelizados ainda na África, por vontade própria, fazendo eles mesmos, em sua terra, sincretismos entre Santos e Nkisis.

Porém, uma parte banta não aceitou, nem adotou a evangelização, então tramaram uma revolução contra do rei do Congo para se mostrarem opostos ao homem branco e os Santos, começaram a dizer que eram do Diabo. Esses povos bantos eram os Bagandas, Balundas e Balubas.

Depois de um tempo os Bagandas em revolta conquistaram a região de Angola e logo após quase todo o reino congo (que era formado por vários reinos vassalos). Um dos reis Bagandas foi Ngola Mbandi, de onde provém o nome de Angola. Esses revolucionários estavam apoiados pelos grandes feiticeiros e guardiões das tradições bantas. Sua bandeira era formada pelas cores da tribo dominante: vermelho e preto (muito depois seriam as cores de Angola). Os Luba-Lunda, que ajudavam na guerra em contra os brancos e os reinos congos evangelizados usavam na bandeira as cores vermelha, preta e branca.

Devemos também dizer que depois de muito tempo de paz entre portugueses e congos, um dos descendentes do Rei do Congo para não perder o reino, decidiu se unir ao pensamento das outras tribos, pegando novamente seu nome africano e declarando a guerra contra os portugueses, aliando-se com o resto dos povos bantos.

Os portugueses por seu lado, levaram-se milhares de escravos bantos para o Brasil, e entre eles se encontravam partidários dos dois grupos bantos: os evangelizados e os defensores das tradições. Este último grupo, já no Brasil, continuou em estado de revolta, contrário a tudo que vinha do branco, e também em parte "inimigo" dos escravos feiticeiros que sincretizavam os Nkisis com os Santos.

No período da escravidão, os bantos dos dois grupos (revolucionários e evangelizados) fazem contato com os grupos tupi-guaranis, sendo que também entre os índios, havia dois grupos com afinidade aos grupos bantos: índios bruxos que não aceitavam os santos (se identificando com o diabo) e os índios evangelizados que gostavam da idéia do sincretismo dos santos. Esses grupos se uniram para fazer suas magias em separado, quer dizer, os negros bantos contrários ao branco e aos santos com os índios bruxos; e os negros bantos evangelizados com os índios evangelizados.

Daí o surgimento de duas correntes paralelas e opostas que seriam conhecidas no Brasil como Umbanda - o culto dos caboclos e pretos evangelizados; e a Kimbanda - o culto dos caboclos e pretos que não aceitaram viver em baixo do pé do Deus dos brancos, se aliando ao Diabo (inimigo do branco) e com Exu (aquele que também era olhado como um demônio).

Aliás, temos dizer que, com o passar do tempo, quando morrem os escravos dos dois grupos, estes são chamados e incorporados através de transe por seus descendentes, a princípio na Macumba e logo depois na Umbanda. Porém, os espíritos chegavam todos num mesmo terreiro sem tanta diferenciação e até confundindo os grupos. O que os descendentes de escravos menos queriam era de serem chamados de satanistas ou macumbeiros, por isso colocaram aos grupos revoltosos em baixo do pé dos grupos evangelizados e a Kimbanda ficou sendo uma sub-linha da Umbanda. Porém os próprios Espíritos se encarregaram de fazer a separação e hoje em dia podemos dizer sem dúvida que existem duas religiões paralelas e diferentes: a Umbanda - aonde chegam os Espíritos Guias dos Pretos e Caboclos evangelizados, vestidos de branco, humildes, que acreditam nos santos e os orixás, onde não se fazem sacrifícios de animais, que não fazem o mal, etc, e a Kimbanda - aonde chegam os Espíritos Guias dos Pretos e Caboclos que trabalham para bem ou mal, com sacrifícios de animais, luxo, orgulho, revolução e que não acreditam nos Santos da Igreja, defensores de tudo o que seja africanismo, e aceitam os Orixás e Nkisis.

Cabe dizer, que os seguidores dos distintos ramos da umbanda, adotam e adaptam as duas linhas (umbanda-kimbanda) segundo os preceitos e as influências majoritárias da sua Casa de Religião. Por exemplo, aqueles que fazem Umbanda Branca (sem sangue) colocam a kimbanda em baixo da mesma e continuam sem praticar sacrifícios de sangue para os Exus. Aqueles que fazem culto aos Orixás iorubás e também praticam a Umbanda, dadas às influências iorubanas, olham na Umbanda como na Kimbanda um culto aos ancestrais (ou Linha de Almas) submetidos aos Orixás, fazendo para os ancestrais rituais de sacrifícios (princípio fundamental dessa cultura).

Hoje em dia podemos dizer que a Kimbanda se libertou da Umbanda, existindo um culto separado só para Exu da Kimbanda e fora do contexto umbandista.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

HEITOR DOS PRAZERES UM COMPOSITOR DE AXÉ

HEITOR DOS PRAZERES UM COMPOSITOR DE AXÉ

((Rosana Pinheiro e Carlos Augusto Pinheiro )

Quem nunca ouviu no terreiro aquele popular ponto da Oxum , intitulado como Mamãe Oxum : “Ai ieieu, aiieieu mamãe Oxum, aiieieu, aieieu mamãe Oxum; aiieieu mamãe Oxum, aiieieu Oxumare...” Essa é uma das jóias musicais presentes até hoje em nossas curimbas e esta entre outras demais é de autoria deste fantástico e versátil compositor chamado HEITOR DOS PRAZERES..

Heitor dos Prazeres nasceu em 23 de setembro de 1898 e morreu em 1966, natural da cidade do Rio de Janeiro, sua família era de descendentes de escravos , como as demais famílias de igual condição, tinham muitas dificuldades financeiras. Sua mãe era costureira e seu pai era marceneiro e clarinetista da Guarda Nacional.

O Pai de Heitor morreu cedo, deixando-o ainda criança com sua mãe e irmãos, não tendo mais seu pai para ajudar a prover sua família Heitor tinha como herança apenas o clarinete e o velho piano de seu pai, desta forma, Heitor passa a trabalhar, alem de estudar, para ajudar no sustento de sua família.

A família de Heitor teve a ajuda de parentes, dentre eles, seu tio, Hilário Jovino (Lalu de Ouro) que também era músico. O mesmo, ao ver a vocação musical dele, ajudou-o no mundo da música, passando a ensiná-lo o que sabia, levá-lo a apresentações e reuniões de músicos, alem de presenteá-lo com o seu primeiro cavaquinho.

No estilo de compor Heitor foi muito influenciado inicialmente pelo estilo do tio.

Naquele tempo o cenário musical do Rio de Janeiro fervilhava com lundus, choros, jongos, etc., sobretudo na praça XI, onde se concentravam a maioria dos descendentes de escravos, inclusive a família de Heitor que residia na região.

Heitor participava de tudo que fosse relacionado à música, e era levado por sua família a eventos que iam desde as reuniões na casa de Tia Ciata até sessões em terreiros, dentre outros. .

Nesse contato com a religiosidade afro-brasileira Heitor chega aos cargos de ogã-ilu e ogã-alabé, tendo não somente a capacidade de compor lindos pontos cantados, mas também fazer arranjos musicais com diversos instrumentos de percussão, além de tocar cavaquinho e clarinete..

Heitor foi um compositor fenomenal, pois fazia musicas dos mais variados ritmos e estilos , tendo sido parceiro musical de muitas estrelas de nossa musica, dentre elas, NOEL ROSA, aliado ao fato de ter sido autor de vários sucessos.

Na década de 30 começa a pintar telas retratando a vida boêmia carioca e o mundo do samba, participando de varias exposições, tendo seu trabalho reconhecido pelo publico.

Heitor continua e continuara por gerações encantando a todos nos terreiros com o legado musical afro-religioso que nos deixou.

Na sua discografia podemos citar como exemplo as seguintes obras , devido à musicalidade afro-religiosa :

Cosme e Damião/Iemanjá (1954) Columbia 78

Vamos brincar no terreiro/Nego véio (1955) Sinter 78

Pai Benedito/Santa Bárbara (1955) Columbia 78


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


LIRIO, Alba e PRAZERES FILHO, Heitor dos. Heitor dos Prazeres - Sua arte e seu

tempo. Rio de Janeiro: ND Comunicação, 2004.

VASCONCELLO, Ary. Panorama da Música Popular Brasileira - volume 2. Rio de

Janeiro: Martins, 1965.

http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?nome=Heitor+dos+Prazeres&tabela=T_FORM_A

http://www.heitordosprazeres.com.br/

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O PANO DA COSTA

O PANO DA COSTA
(Autores - Carlos Augusto Pinheiro dos Santos e Rosana Pinheiro )
Sempre que vamos visitar os terreiros de Candomblé e alguns terreiros de Umbanda que seguem uma linha mais africanizada, ficamos maravilhados com esta peça da indumentária religiosa afro-brasileira , chamada de PANO DA COSTA, que é um tecido colorido que normalmente envolve o corpo das mulheres a partir do peitoral. ,entretanto na forma denominada ALAKA , o pano da costa ganha um maior comprimento e envolve as mulheres dos ombros até aproximadamente a altura das canelas.

Em várias pinturas de Debret retratando escravos do inicio do século 19 e algumas fotos de escravos nos primeiros anos da fotografia no Brasil, vemos os mesmos usando essa peça de indumentária em suas vestes.

O termo pano-da-costa , passa a idéia de que o mesmo teve sua origem na costa africana, , de acordo com registros históricos, o mesmo vinha da costa ocidental ,assim como outros produtos que vieram para o Brasil, no entanto, todo tipo de produto que era importado da África, vulgarmente tinha acrescido ao seu nome o nome DA COSTA, por exemplo, sabão da costa , pimenta da costa, etc...

Há duas teorias em relação aos panos da costa no Brasil, a primeira diz que os primeiros panos da costa vieram para o Brasil enrolando os corpos das negras africanas trazidas para cá para serem vendidas no mercado escravo. A outra diz que as negras eram compradas praticamente nuas e que as que iriam trabalhar na casa grande como mucamas, seriam melhor vestidas , com trajes semelhantes aos usados pelos europeus para não prejudicar a imagem dos seus senhores, já as que iriam trabalhar fora da casa grande , seriam vestidas apenas com o pano da costa para cobrir seus corpos.

Mais precisamente o pano da costa constituia-se inicialmente de uma peça composta por quatro tiras de tecido colorido com 15 cm de largura produzidos artesanalmente em teares, costurados um ao outro manualmente , sendo suas cores de acordo com a cor do orixá de quem iria usá-lo , poderíamos dizer que ele tem a forma de um Xale retangular. .

Com o período da expansão árabe no território africano, o contato das populações africanas com os povos orientais que usavam tecidos enrolados em seus corpos como vestes , fez com que se formassem populaçoes africanas maometanas que sobre os rígidos padrões morais arabes, sentissem a necessidade de uma vestimenta africana semelhante para cobrir seus corpos, com isso começaram a trabalhar com peles animais , inclusive a lä , e couro, depois passaram a tecer com fibras vegetais tecidos (RAFIA ,vinda de Madagascar) e mais tarde através da colonização européia e a introduçáo da tecelagem de algodáo, passou-se a trabalhar com este material. Os tecidos africanos passaram a ser exportados para varias partes do mundo, inclusive o Brasil.

Dentre os povos africanos que mais se destacaram pela produção e uso de panos–da-costa, foram os Malés, africanos adeptos do islamismo, que também mantinham as crenças em suas divindades e escravos dessa nação habitaram em sua maioria na região Nordeste do Brasil .

Somente no século XVIII com o desenvolvimento dos primeiros teares no pais , é que passou-se a fabricar tecidos para a confecção do pano da costa no Brasil

Hoje em dia, um dos poucos terreiros que preserva a técnica e produz panos–da-costa , como era feito no século XVIII é o Ilê Axé Opô Afonjá através de sua pequena oficina mantem a tradição da fabricação artesanal em teares do pano-da –costa .

O Pano-da-Costa era chamado em Yorubá de ALAKÁ, creio que por isso chama-se também aquela vestimenta mais comprida que o abada de alaká, pela mesma fazer lembrar os panos-da-costa de maior comprimento , que encobriam quase todo o corpo da escrava.

Inicialmente o pano-da-costa foi usado como um vestuário barato para as escravas que trabalhavam fora da casa-grande , depois passou a ser um adereço do vestuário dos integrantes das irmandades negras, que surgiam para construir igrejas para os escravos rezarem e para darem funerais dignos a estes.; em ambos os caso as cores dos panos-da- costa eram escuros e pesados. Mas a grande revolução foi a incorporação deste adereço ao traje de baiana dos terreiros de candomblé, a partir daí ele ganhou vida, pois as cores do pano-da-costa passaram a ser vivas, sempre na cor do orixá principal de quem usasse , além de ser ornado com bordados, fitinhas e rendas em suas bordas, fazendo com que o traje de baiana ganhasse vida, quebrando a monotonia do branco, além de marcar a cintura da roupa, fazendo com que até hoje fiquemos maravilhados em ver uma gira tão bela em colorido, uma verdadeira aquarela da fé em nossos terreiros

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
CASA MUSEU DO OBJETO BRASILEIRO http://www.acasa.org.br/arquivo_objeto.php?reg_mv=OB-00565

TORRES, H. A.. Alguns aspectos da indumentária da crioula baiana. Cad. Pagu, Campinas, n. 23, Dec. 2004 . Available from . access on 08 Nov. 2009. doi: 10.1590/S0104-83332004000200015.

Lody, Raul Giovanni. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura et al (Cadernos de Folclore, 15), 1977. 16p., photos, glossary, bibl., wrps Paperback On a traditional Black Brazilian female costume

LODY, Raul. Dicionário de arte sacra e técnicas afro-brasileiras. Rio de Janeiro: Pallas, 2003.